Adriana Falcão
Liberem a praça! Liberem a praça!
O cego líder não notara a sua presença, nem deveria. Ao lado da fonte, sozinha
e, acima de tudo, solitária. Fechava os olhos tentando dispersar de si o aroma
silencioso. E raivoso. A serenidade parecia se concentrar naquele estreito banco.
Porém, algo incomodava àquela mulher. Seria água da fonte. Ou água do que se
foi. Talvez, fosse o casal à sua frente, correndo e tremendamente sufocado.
O enfrentamento não parecia cativar a sua atenção. Abria os
olhos poucas vezes e tinha vergonha. Do próprio ventre a vossa desgraça. O
pensamento se manifestou em voz alta. Ninguém, de certo, poderia ouvir. As
estupendas explosões vindas do lado mais forte oprimiam as camisas brancas. Ela
permanecia em repouso. Seu pensativo e longo prognóstico se confirmara. A mãe e
a opressão do filho, sozinhas em um sábado no parque. A preferência dos lírios
da pouca idade parecia tão acertada. Não se concretizara, porém. Restava o
cheiro de cimento molhado. Olho lacrimejado da fumaça que cega a moral.
De súbito, levantou-se. Andava calmamente, deslocando as pontas
dos dedos nas flores; procurava a de Lis. De tola, procurou. Custou a caminhar,
não encontrou. Os jardins da praça estavam tristes. Os lírios haviam sido
cortados. Calados.
Caminhando mais um pouco, achou facilmente algo. Havia as
liras, liras otomanas. De tal forma incrustada nas camadas mais altas do
monumento central, que caberia como representação específica do interesse
implícito. Da moeda faz-se um ditador. Filho de quem repousa. Seja a mãe, seja
o povo.
Matheus Valença.
