sábado, 22 de junho de 2013

A Primavera será dos lírios



 “Ali, deitada, divagou: se fosse eu, teria escolhido lírios”
Adriana Falcão

           
          Liberem a praça! Liberem a praça! O cego líder não notara a sua presença, nem deveria. Ao lado da fonte, sozinha e, acima de tudo, solitária. Fechava os olhos tentando dispersar de si o aroma silencioso. E raivoso. A serenidade parecia se concentrar naquele estreito banco. Porém, algo incomodava àquela mulher. Seria água da fonte. Ou água do que se foi. Talvez, fosse o casal à sua frente, correndo e tremendamente sufocado. 

          O enfrentamento não parecia cativar a sua atenção. Abria os olhos poucas vezes e tinha vergonha. Do próprio ventre a vossa desgraça. O pensamento se manifestou em voz alta. Ninguém, de certo, poderia ouvir. As estupendas explosões vindas do lado mais forte oprimiam as camisas brancas. Ela permanecia em repouso. Seu pensativo e longo prognóstico se confirmara. A mãe e a opressão do filho, sozinhas em um sábado no parque. A preferência dos lírios da pouca idade parecia tão acertada. Não se concretizara, porém. Restava o cheiro de cimento molhado. Olho lacrimejado da fumaça que cega a moral.

          De súbito, levantou-se. Andava calmamente, deslocando as pontas dos dedos nas flores; procurava a de Lis. De tola, procurou. Custou a caminhar, não encontrou. Os jardins da praça estavam tristes. Os lírios haviam sido cortados. Calados.

       Caminhando mais um pouco, achou facilmente algo. Havia as liras, liras otomanas. De tal forma incrustada nas camadas mais altas do monumento central, que caberia como representação específica do interesse implícito. Da moeda faz-se um ditador. Filho de quem repousa. Seja a mãe, seja o povo.


Matheus Valença.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O leque de Mallarmé

          Nas últimas décadas do século XIX, um novo movimento artístico se configurava na França. Na pintura, recebeu o nome de Impressionismo. Na literatura, o simbolismo, que surgia contra a forte objetividade encontrada na arte do período, "em socorro à criatividade humana tão pouco requisitada na época", em tempos de Segunda Revolução Industrial.
        Um dos nomes marcantes dessa estética foi Stéphane Mallarmé, um francês que buscava expressar a sugestão e a imprecisão em sua obra. Segundo ele, "o gozo do poema é feito da felicidade de adivinhar pouco a pouco". Talvez essa felicidade seja compartilhada pelos cientistas.
Mallarmé, feliz por ser citado no post do blog.
          A cada descoberta, a ciência desvenda um pouco do Universo em pequena e grande escalas. Tudo bem que não consiste de "adivinhação" tão somente, mas são imensas as hipóteses que jorram, por exemplo, na física moderna. Buracos negros, estrelas de nêutrons, partículas inferiores a um elétron, supercondutores, antimatéria... Muitas das fenomenais descobertas da física no século XX já não se constituem de sonho de "Sci-Fi", mas como ortodoxias da ciência.
         Assim como o simbolista francês, a ciência parece "sugerir o mundo", com suas teorias de descrição de fenômenos que talvez não correspondam exatamente ao que ocorre; mas que, numa abordagem positivista - como o faz o físico Stephen Hawking -, adequam-se às observações e nos permitem trabalhar para promover modelos que se aproximam cada vez mais da realidade. Um nobre exemplo é o da Teoria da Gravitação de Isaac Newton, que correspondia com maestria às observações, porém não explicava a essência da gravidade: a deformação que os corpos causam em um "tecido", o espaço-tempo, o que seria explicado pelo nosso querido Einstein.
         Stéphane Mallarmé morreu em 1898 e não concluiu o que ele pretendia que fosse "a Grande Obra" de sua vida, um projeto de criação nova e que seria "sintonizada com o universo". Há espaço para uma "grande obra" na ciência? Físicos buscam a "teoria de Tudo", papel que cabe atualmente à "teoria" de Cordas (na verdade, ainda uma hipótese). Será possível unificar a ciência para uma explicação generalizada do universo? Talvez a grande obra da ciência seja constituída por ela própria. Um verdadeiro leque de contribuições, 

"Tendo como por linguagem
Só este abanar ao céu"*

               Abanando e olhando ao céu, prosseguimos com a intrigante aventura a qual a ciência se constitui. Em linguagem universal e com contribuição de todos,
"Para sempre ele apareça
Em tua mão que não cessa"*

         Na mão da humanidade, ávida por conhecer, pouco a pouco, a maior das obras-primas, o Universo. Ou universos?



* Retirado do poema "Leque", de Mallarmé.


Fonte da imagem: 

https://www.7letras.com.br/media/autor/St%C3%A9phane%20Mallarm%C3%A9%20-%20foto%20%20copy%20menor.jpg

Outras fontes consultadas:

http://rosabe.sites.uol.com.br/simbol.htm

http://www.beatrix.prop.br/index.php/stephane-mallarme/

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Apenas você viajando no tempo. Dentro do ônibus.


          Você já viu esta equação?



       É uma importante relação expressa por Einstein, em sua Teoria da Relatividade Restrita e trata da dilatação do tempo. Os efeitos dela são imperceptíveis no nosso cotidiano. Aparentemente, a equação é um conjunto chato e "sem vida" de símbolos matemáticos. Não é bem assim.


      O Dr. Albert conseguiu quebrar um conceito muito importante (cunhado por Isaac Newton) no início do século XX: o de que o tempo seria absoluto, ou seja, Newton acreditava que qualquer indivíduo em qualquer lugar do planeta teria, em seu belo relógio de pulso, a mesma marcação de tempo, independente de qualquer movimento.
       Vamos desvendar a equação acima? (Vamos!)
       Imagine-se indo para o seu trabalho, universidade ou, ainda, colégio. Você está com um outro amigo. Os dois, ambientalmente conscientes, pegam um ônibus. O seu veículo (seu sortudo...) chegou primeiro. O seu amigo, triste, fica em repouso no ponto de ônibus. O relógio dele marca um intervalo de tempo Δt.
         Tudo bem, você está em seu ônibus, o qual se "remexe" na estrada a uma velocidade v e o seu relógio demarca um intervalo de tempo Δt' (se liga no apóstrofo).
        
Você, confortavelmente localizado no ônibus, move-se a uma velocidade "v", semelhante à do ônibus.
           Agora vem a parte mais legal - ou não, dependendo do seu humor. Você não sabe, mas está "viajando" no tempo! Sim, no seu ônibus! Tudo bem que é em uma escala ridiculamente pequena, mas está! Perceba bem a equação:


           Como a sua velocidade é v, o seu relógio marca Δt' e o de seu amigo paradão, Δt, a equação nos diz que quanto maior for a sua velocidade, menor o intervalo de tempo do seu relógio em relação ao do seu amiguinho.
          Por exemplo, se no relógio do seu amigo um intervalo de tempo de 30 minutos fosse marcado, o seu poderia estar marcando em torno de 5 minutinhos! Claro, essa diferença enorme ocorreria apenas se você estivesse estupidamente rápido - mesmo! No nosso cotidiano, essa diferença é muito pouco expressiva. Mas por quê?
           Existe mais um símbolo nessa equação, o c, a velocidade da luz, que mede 300.000 quilômetros por segundo. Isso vale muito! Imagine agora, como expresso na equação, esse valor elevado ao quadrado! Tá explicado porque a gente nem sente nada, o v é muito pequeno na maioria das vezes, não dá para competir...
           Uma consequência dessa equação de dilatação do tempo é o fato de que se você conseguisse atingir a velocidade da luz, o tempo no seu relógio IRIA PARAR (Δt' = 0)! O mesmo acontece no interior de um buraco negro. Ou seja, duas situações "fáceis" para ocorrer, não acha?
       Após árduos cálculos, Einstein mostrou que o tempo varia de observador para observador, ou seja, é relativo. Mas uma coisa é independente dessa teoria toda: a luz. O c é uma constante física que não quer nem saber quem é o observador, vale sempre a mesma coisa.


           Por Matheus Valença Correia

Fontes das imagens:
http://poesiadascores.com/wp-content/uploads/2012/08/em-blog.jpg
http://blogs.odiario.com/paicandublognews/files/2011/11/%C3%94nibus-Lotado.jpg


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Zagueiros, vale a bola na mão?




Por Matheus Valença Correia 
 
  A renúncia do papa Bento XVI trouxe à tona uma série de rachaduras na estrutura da Igreja do Vaticano. Escândalos como o “Vatileaks” (divulgação de documentos confidenciais da Igreja) e o abafamento das denúncias de pedofilia envolvendo sacerdotes refletem a situação delicada pela qual a instituição religiosa passa atualmente. O papa, contribuindo incessantemente para a corda bamba do catolicismo, reiterou um discurso conservador, atacando métodos anticonceptivos, proibindo ordenamento de homens (só e somente homens, cabe aqui a observação) que “apoiem a cultura gay” e o histórico repúdio ao casamento gay. 
  Como consequência, nos anos do seu pontificado, o papa enfrentou uma estagnação no número de católicos no planeta. No Brasil, especificamente, há um declínio considerável mostrado pelos últimos censos do IBGE: a população protestante e sem religião cresce. A postura de sua Santidade é responsável por muito disso. A sociedade adquiriu novos paradigmas. A ortodoxia Católica Romana não cabe mais em um contexto de liberdades individuais e reconhecimento de amplos direitos como hoje. Foi como aconteceu na minha infância. Nos tempos de “eu menino”, em partidas de futebol no colégio, tentei (de forma inocente, talvez em uma atitude de amor ao handebol) impor uma nova regrinha para os meus colegas. Jogador assíduo na defesa, defendi veementemente a tese de que o zagueiro, assim como o defensor da barra, tinha todo o direito de segurar a “pelota” com as mãos e, assim, defender honrosamente o seu time.
  Os meus colegas estranharam e protestaram muito a respeito. Apesar de estarem na primeira série do ensino fundamental, tinham certa noção daquele esporte. Aquela nova regra, antiga no meu inconsciente, não se aplicava àquela realidade. O conjunto dogmático da Igreja funciona de maneira similar: funciona perfeitamente na mente de líderes religiosos estagnados na Idade Média, propostas que não cabem no nosso tempo. Se “o passado é lição para se meditar”, Mário, meditemos. Não nos deixemos cair em um passado de discriminação e intransigência, o planeta avança para melhor, não podemos retroceder. Recebi uma bola direto na cabeça como resposta à minha proposta inovadora no futebol. O papa também, mas o chapéu mexicano aparentemente escondeu a pancada.



Fonte da imagem: http://www.ionline.pt/sites/default/files/imagecache/iarticle_photo_400x225/imagens/papa-no-mexico.jpg